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Excesso de mercúrio em pescados (cação)

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Com o número atômico 80, o mercúrio é um metal que se apresenta sob a forma líquida. Na indústria, é utilizado na fabricação de termômetros, barômetros, amálgama dentário e empregados como antisséptico em ferimentos. No entanto o grande risco para a população é quando este metal está presente nos alimentos e, no caso de Belém, o perigo materializa-se em um alimento bastante consumido na cidade e um dos mais suscetíveis à contaminação por mercúrio: o peixe.

Pesquisa realizada pelo Grupo de Ecologia Aquática da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com o Instituto Evandro Chagas, indica que algumas espécies de peixes consumidos em mercados e feiras de Belém apresentam alto teor de mercúrio, chegando a níveis acima da quantidade recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O estudo foi realizado por Juliana Araújo, aluna de Graduação em Ciências Biológicas da UFPA, sob a coordenação do professor Tommaso Giarrizzo, contou com a colaboração do pesquisador do Instituto Evandro Chagas (IEC) Marcelo de Oliveira Lima. Segundo Juliana, o fato de não haver pesquisas sobre o tema em Belém funcionou como um incentivo inicial, “aqui, no laboratório, já desenvolvemos trabalhos sobre a contaminação de mercúrio. Pesquisamos e descobrimos que, na capital, ninguém havia feito essa análise antes”.

No processo, foram coletadas amostras de peixes carnívoros, onívoros e importados. “Escolhemos os principais mercados e supermercados de Belém para fazer a amostragem. Decidimos ir aos mesmos lugares frequentados pelo consumidor. Nossa opção foi coletar a maior diversidade e trazer para o laboratório”, explica Juliana Araújo.

Metal é varrido do solo pela água da chuva

Os pescados que apresentaram índices de mercúrio acima do recomendado foram tucunaré, cação e pescada branca (peixes carnívoros) e a tainha–curimã (peixe onívoro). A razão apontada pela estudante para a contaminação é o solo da região, rico em mercúrio em razão da antiga formação geológica. Presente no solo, o metal é varrido para os rios pela água da chuva e sofre um processo químico transformando-se em um componente orgânico consumido pelos peixes.

“Os peixes herbívoros consomem plantas que contêm uma pequena quantidade de mercúrio acumulada e tendem a apresentar baixos índices de contaminação. Por sua vez, os onívoros consomem alimentos com índices de mercúrio levemente mais elevados, como: insetos, algas, moluscos e outros peixes. Os carnívoros alimentam-se de peixes já contaminados, por isso apresentam índices mais altos de contaminação”, esclarece Juliana Araújo.

Embora esteja comprovada a contaminação de algumas espécies de pescados da Bacia Amazônica, não há registros comprovados do “mercurialismo”, termo utilizado para denominar o conjunto de sintomas proveniente da alta ingestão do metal. “Há diagnósticos de absorção em comunidades ribeirinhas, mas não há relatos de contaminação extrema”, ressalta a estudante.

Segundo Tommaso Giarrizzo, é necessário haver maior controle e vigilância sobre o pescado no Brasil. O professor adverte que não há razão para uma dieta restritiva aos pescados, mas é necessário identificar os locais de pesca onde há risco de contaminação.

“Neste sentido, o estudo foi uma provocação para que as autoridades sanitárias tenham maior cuidado com a fiscalização da qualidade do pescado que está sendo consumido pelos paraenses. A carne bovina, por exemplo, passa por inspeções estadual e federal, além do Controle de Inspeção e Fiscalização (CIF), que se configura como um selo de qualidade do produto”, avalia.

http://jornalbeiradorio.ufpa.br/novo/index.php/2013/147-edicao-115-outubro-e-novembro/1492-peixes-com-alto-teor-de-mercúrio

RIO – Após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditar um lote de cação da marca Frescatto no início do mês, por presença de mercúrio acima do permitido, o que pode trazer riscos à saúde, O GLOBO levou à Central Analítica do Departamento de Química da PUC-Rio dez tipos de peixes congelados e três marcas de atum enlatado para teste. Na medição, o mesmo tipo de peixe, mas de outra marca, o Cação Azul posta congelada, da Qualitá, apresentou 20% de mercúrio acima do limite de segurança estabelecido pela Anvisa e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 1 mg/kg para espécies predadoras como essa. Todos os demais peixes avaliados (atum, bacalhau, dourado, linguado, merluza, polaca, salmão, tilápia, truta e o crustáceo camarão) apresentaram quantidade de mercúrio dentro da faixa considerada segura, que vai até 0,5 mg/kg.

De acordo com o diretor do departamento de química da universidade e coordenador do teste, o químico José Marcus Godoy, o resultado ficou dentro do esperado, tendo em vista que o mercúrio está presente em maior quantidade nos peixes do topo da cadeia alimentar, como o cação, que é carnívoro e um dos maiores predadores do mar.

— Os peixes acumulam o mercúrio presente em todos os outros dos quais se alimentam, assim como o das algas. Por isso, a presença em maior índice no cação do que nos demais tipos testados, que estão em posição inferior na cadeia alimentar— diz.

Os limites de concentração de mercúrio em peixes sugeridos pela Anvisa e pela OMS só fazem sentido se associados à taxa de consumo. O índice de 0,5mg/kg , por exemplo, é calculado para a ingestão de até 400 gramas de peixe por semana por um adulto que pese cerca de 60kg.

Os resultados identificados pela avaliação da PUC-Rio, diz Godoy, são bastante próximos ao do monitoramento de mercúrio em peixes vendidos no mercado americano, que é feito há duas décadas pela Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador dos EUA equivalente à Anvisa.

Para realizar a medição do mercúrio, foram retirados três pedaços de 0,5g de cada peixe. Essas pequenas partes foram cozidas em banho-maria em uma mistura ácida por meia hora. Dissolvido, o peixe em solução foi submetido a uma técnica chamada vapor frio, na qual um gás de arraste leva o mercúrio a uma área de medição.

De acordo com Fernando Barbosa Junior, toxicologista da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, no geral, o resultado do teste feito no Rio não traz preocupações para a saúde dos consumidores.

— Apesar de o mercúrio estar presente nos peixes em sua forma mais tóxica, uma intoxicação só ocorre se a pessoa tiver dieta à base de cação contaminado, comendo o alimento de quatro a sete vezes por semana, em quantidade próxima a meio quilo por refeição ou se ingerir, numa única refeição, perto de 1kg do peixe contaminado — explica o toxicologista, que há dez anos realiza pesquisas na região amazônica sobre exposição da população a peixes contaminados com mercúrio.

RISCO MAIOR EM PEIXES CAPTURADOS NA COSTA

Populações ribeirinhas ou que vivem em áreas contaminadas, como as próximas a minas de extração de carvão, são mais suscetíveis aos efeitos nocivos do elemento químico. O mercúrio afeta o sistema nervoso humano, causando problemas na visão e audição, na articulação das palavras, tremores e cansaço, explica Barbosa Junior. Nos EUA, as autoridades de saúde recomendam que grávidas evitem comer cação, pois haveria transferência do metal para o feto, com possíveis danos irreversíveis à formação do sistema nervoso central do bebê.

— Peixes capturados perto da costa tendem a apresentar maior índice de mercúrio, pois as atividades industriais se concentram nas baías. Decerto, se pegássemos peixes na Baía da Guanabara para testar, os índices de mercúrio seriam maiores do que nos capturados em outros locais — diz Godoy.

O Grupo Pão de Açúcar, responsável pela posta de cação Qualitá, contestou o resultado. Segundo a empresa, análise feita no peixe, em 1° de agosto, “demonstrou teor de mercúrio de 0,426 mg/kg, em conformidade com a legislação”. A empresa informou que faz análises periódicas de monitoramento em laboratórios certificados por órgãos federais.

Segundo o Ministério da Pesca, a média de consumo de peixe mais do que dobrou em uma década, para 14,5 kg por habitante em 2013. A OMS recomenda a ingestão de, ao menos, 12 kg por habitante/ano. Não há dados sobre consumo específico de cação e, além dele, a pescada branca e o tucunaré, típicos da Bacia Amazônica, são os peixes com maior risco de chegarem contaminados à mesa. Segundo o especialista da PUC-Rio, não há processo industrial capaz de eliminar o metal:

— O ideal seria a indústria pesqueira realizar testes nos peixes antes de colocá-los no mercado e eliminar os que contenham excesso de mercúrio.

O Ministério da Pesca informou ainda, sem revelar números, que cerca da metade do peixe consumido no Brasil é produzido em cativeiro, o que reduziria as chances de contaminação.

— O mercúrio é volátil, então vai para a atmosfera e se dispersa, sendo depositado em todo mundo. E como o mar representa dois terços da área da terra, é um grande depositário. A maior quantidade de mercúrio que é despejada no meio ambiente vem da queima de carvão — complementa Godoy, diretor do Departamento de Química da PUC-Rio.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que a indústria pesqueira está inserida no Programa de Controle de Resíduos e Contaminantes, que consiste na coleta de amostras de alimentos para análise de diversos elementos em laboratórios oficiais, entre eles o de mercúrio. Segundo o Mapa, a responsabilidade sobre o controle do pescado capturado ou adquirido de terceiros é de cada indústria. A fiscalização do ministério é feita com base no risco de cada empresa ou produto fabricado por ela. O Mapa disse ter controle das autuações feitas, mas não divulgou os dados.

A Anvisa, responsável pelo monitoramento do limite de contaminantes em alimentos, não detalhou como é feito o processo. Armando José Romaguera Burle, presidente do Conselho Nacional de Pesca e Aquicultura, órgão representativo das entidades do setor, não quis comentar o assunto.

Sobre o lote J14-0107 de posta de cação 500g, importado de Taiwan, identificado com excesso de mercúrio pela Anvisa, no início deste mês, a Frescatto afirma que novas análises, feitas nos dias 5 e 7 deste mês, “apresentaram quantidades de mercúrio de 0,10mg/kg a 0,63mg/kg, ou seja, inferiores ao limite do Codex Alimentarius de 1mg/kg, estabelecido pela Organização das Nações Unidas”. Segundo a empresa, nesta análise — feita pelo Food Intelligence, laboratório especializado na análise de alimentos e certificado pelo Mapa — o lote J14-0107, apresentou 0,18mg/kg de mercúrio.

A Frescatto informou que todo o pescado comercializado é importado e tem certificado sanitário emitido pelo órgão regulador do país de origem, condicionada às normas do Codex Alimentarius da ONU. A empresa diz ainda fazer periodicamente análises de metais pesados, auditadas pelo Ministério da Agricultura.

 

Autor: O Vigilante Sanitário

Médico Veterinário Sanitarista exercendo funções na Vigilância Sanitária com atribuições de polícia administrativa na regularização e fiscalização de estabelecimentos que comercializam alimentos e congêneres na Cidade Olímpica do Rio de Janeiro.

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